A imprensa underground

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Última atualização: 22 de maio de 2017 - 12:33:20

Por: Willian Jhonnes

Apesar do atraso, estou aqui de volta! Como falei no texto passado, há muita coisa ruim e amadora no meio underground e, talvez, a pior e mais amadora delas seja a imprensa. Falo isso pois faço parte dessa imprensa underground, seja como redator, jornalista ou fotógrafo, há quase 20 anos. Em todo esse tempo, uma coisa nunca mudou: a falta de caráter e compromisso dos – se é que podem ser chamados desta forma – agentes de imprensa. Como agentes de imprensa, me refiro a todos os elementos que compõem a atividade. Sejam redatores, repórteres, fotógrafos ou assessores, todos fazem parte dessa massa que, além de informação, deveria levar um conteúdo de qualidade para quem consome a cena underground. Pois é. Deveria…

Uma das coisas mais fáceis de se obter hoje em dia é um domínio na internet. Quando, há anos atrás, para se conseguir um domínio registrado no Brasil era necessário um CNPJ e, portanto, apenas empresas podiam adquirí-los, a quantidade de sites especializados em música e, principalmente, sobre a cena underground, era muito reduzida. Isso fazia com que as poucas pessoas que se propunham a este trabalho realmente se dedicassem e fizessem um trabalho, se não impecável, muito próximo disso. Era uma época interessante para se trabalhar, pois o trabalho era digno de respeito e todos se respeitavam. Imprensa e músicos tratavam-se no mesmo nível, sem a necessidade da babação de ovos ou arrogância dos dias de hoje. Mas, com a facilitação do acesso aos domínios registrados através do CPF do proponente, hoje, qualquer um pode adquirir um domínio. Todos os dias, brotam novos sites de notícias sobre música, em sua maioria blogs – alguns, inclusive, utilizando o domínio da plataforma utilizada, dando um caráter ainda mais amador para o trabalho -, que em nada contribuem para gerar uma informação de qualidade.

Os espertalhões

Se analisarmos mais profundamente, poderemos perceber que, invariavelmente, um elemento sempre existiu: o espertalhão. Ele é aquele cara que abre um site ou blog de notícias que apenas replica materiais de outras fontes, não gerando qualquer conteúdo próprio. Para o espertalhão, é mais fácil simplesmente copiar material do que criar, pois a criatividade nele é algo realmente limitado. Conheço inúmeros canais que fazem isso, copiando matérias e releases de outros locais apenas para alimentar o seu. Mas, enfim, qual a utilidade disso? Volume. Outra característica do espertalhão é gerar volume a respeito de alguma coisa, seja uma banda que fará um show em sua cidade ou uma polêmica envolvendo algum nome da música, para que seu nome apareça e seja lembrado de alguma forma. Assim ele se torna uma pessoa conhecida na cena e, quando quiser ver um show de graça, fica mais fácil, já que ele terá credibilidade, mesmo que ilusória.

Há aqueles espertalhões que até geram conteúdos próprios, como resenhas de álbuns e shows, mas que só o fazem para aumentar sua coleção pessoal de materiais. Sempre ouço alguns assessores reclamando de canais que solicitam material para resenha, mas que não publicam nada a respeito daquilo que receberam. Os media packs que são enviados contém de 10 a 20 álbuns (sim, é bastante coisa) e, sinceramente, leva umas 10 ou 15 semanas para resenhar tudo, se o redator tiver o mínimo de profissionalismo, mas o espertalhão, em 3 ou 4 meses, não publica uma resenha sequer. Há aqueles que ainda tentam vender os álbuns recebidos, revelando seu maucaratismo. O pior é ver que esses seres acabam nos limitando, pois as assessorias ficam reticentes em liberar material físico para novos canais, mesmo com propostas sérias, pois ninguém gosta de ter uma série de despesas com o envio do material para que a destinação dele seja outra que não a divulgação.

Há mais um tipo de espertalhão: o dublê. Ele foca em um ou dois veículos um pouco maiores do que o dele e fica acompanhando o que é gerado. Quando algo é publicado, ele vai lá, lê e, em seguida, transcreve como algo original. Nós já passamos por isso aqui, principalmente com resenhas e notas. Nos sentimos como fornecedores de pauta para outros canais, não só pelo tema, mas pelo conteúdo também. Observei isso em alguns momentos bem específicos: uma resenha de um álbum de uma banda desconhecida, mas que é muito bom; uma nota a respeito de algum assunto polêmico e que traz certa visibilidade; um texto falando algo que todos pensam, mas que ninguém tem coragem pra falar. Em todos esses momentos, percebi que, além da pauta ser idêntica, o argumento também era. Mas, peraí! Duas ou mais pessoas não podem pensar da mesma forma? Claro que podem! Mas o detalhe é que elas NUNCA se expressarão da mesma forma, com a mesma semântica, alterando apenas a sintaxe. Isso pode ser considerado plágio se for um trabalho acadêmico, por exemplo, pois a argumentação a respeito de um tema até pode ser semelhante, mas nunca idêntica. E isso é algo realmente irritante.

Os “assessores”

Uma das outras coisas irritantes na imprensa underground são os assessores. Como a função de jornalista/assessor de imprensa não é regulamentada (não existe um conselho federal nem conselhos estaduais), qualquer um pode ser o que quiser. Redator, editor, repórter, jornalista ou assessor de imprensa, basta saber escrever – e olha que alguns nem isso sabem – para se intitular algo. O problema é: pessoas sem o mínimo de profissionalismo, cobrando valores irrisórios pelos serviços mal prestados, acabam por baixar muito o nível da informação que chega a quem a consome, tornando o nosso trabalho quase impraticável. A título de exemplo, recebemos, diariamente, em torno de 20 a 30 e-mails de assessorias, principalmente do meio underground. Destes, filtrando muito, conseguimos publicar um, no máximo dois deles, por estarem mais estruturados e sem erros de grafia. O restante, quase que invariavelmente, são ignorados, já que fica impossível publicá-los. São tantos erros crassos de grafia, erros de concordância e regência ou, simplesmente, coisas tão mal escritas que mais parecem as redações de uma criança em fase de alfabetização, que acaba se tornando impossível aproveitar o material. Isso sem falar no volume de informação inútil que é disparado…

Dia desses recebemos, do mesmo assessor que nos enviou um vídeo, de uma banda que conhecemos e acompanhamos pessoalmente, de péssima qualidade, como se fosse um grande release a ser publicado até no The New York Times, um release informando que uma de suas bandas tinha sido entrevistada para outro veículo de imprensa. Eu, como editor, nunca colocaria em pauta uma notícia a respeito de alguém que foi entrevistado por outro veículo. E isso não é porque seríamos concorrentes, mas porque isso não faz qualquer sentido. Essa informação faz parte do processo de clipping feito para o cliente, o qual serve apenas para mostrar para o próprio cliente qual foi a sua visibilidade e, no caso de booking, mostrar a um possível contratante onde e quando o cliente foi notícia. Esse é o m,esmo assessor que nos envia 15 a 20 e-mails por dia, sem nenhum material realmente aproveitável, já que eu não sou revisor contratado de ninguém para corrigir a redação dos releases e notas.

Pra finalizar

Esse pessoal precisa se profissionalizar. Precisa entender que, apenas escrever, não os credencia para nada. Além de escrever, é necessário fazê-lo bem. Além de escrever bem, é necessário saber sobre o que, como e quando escrever. Eu, realmente, não tenho paciência para essas coisas. Tenho muita paciência pra ver show ruim, resenhar álbuns duvidosos de bandas chatas, mas não suporto ler nada mal escrito (isso realmente me dá aflição), nem ver meu trabalho sendo copiado ou, pior, vilipendiado.

Não adianta eu fazer um trabalho sério se existem dezenas, centenas de picaretas se aproveitando da cena, do trabalho que faço, para jogar o nome de todos na lama. Isso é uma coisa que realmente me cansa. Cansa tanto, que até cansei de escrever esse texto, só de lembrar dos falcatruas que temos por aí.

Até a próxima!